As bochechas do Brasil, por * Arnaldo Bloch

 O tio Dines era diferente. Seu sorriso acompanhava o fino intelecto, o amor pela arte e seu apetite pela contextualização

ARNALDO BLOCH -O Globo

22/05/18 - 21h11 | Atualizado: 23/05/18 - 02h53

Eu mal sabia falar, quanto mais ler e escrever, quando vi, pela primeira vez, aquele homem se curvar em minha direção com um sorriso terno e bondoso. Na intuição de criança, esperei um afago, ou uma dessas troças ruidosas que os adultos fazem com os pequenos. Em vez disso, ele aproximou as mãos do meu rosto, abriu os polegares e indicadores em gancho e aplicou, com vontade, em minhas bochechas, um beliscão duplo tão doloroso que as luzes do salão se apagaram e o burburinho da festa familiar silenciou.

Na época casado com a irmã de meu pai, Rosaly, com quem teve seus quatro filhos, aquele era o tio Dines. Corria o final dos anos 1960 e a famosa previsão do tempo, cifrada, no dia seguinte à promulgação do AI-5, já fazia parte da história recente da resistência à ditadura. Entre os vários sobrinhos, contudo, era sua reputação de apertador em série de bochechas que se espalhava. A gente agora já associava o nome à mania. Era só o tio Dines chegar sorrindo que a turma saía em debandada.

Nos 50 anos que se seguiram a essas agridoces memórias, lentamente conheci as demais facetas do gigante que foi Alberto Dines. Tive outros tios no ramo da imprensa, com destaque para Adolpho Bloch, de quem me orgulhava, e com quem Dines tivera várias rusgas. Com que dono de revista ou jornal ele não as tinha? Mas esse tio era diferente. Era jornalista de raiz, e que jornalista! Com que gana saía o Dines a beliscar as bochechas do establishment, em textos, decisões editoriais, reformas, redesenhos, cartas e livros suntuosos, como “Morte no paraíso", biografia romanesca de Stefan Zweig.

Mas sem nunca apagar do rosto o sorriso que, à medida que o tempo corria, acrescido de óculos e cachos grisalhos fartos, parecia mais amável e compreensivo. Não era só um disfarce. Não era de fachada. Era o mesmo sorriso que acompanhava seu fino intelecto, seu amor pela arte, seu gosto pela História e seu apetite pela contextualização. Sem o Dines, ficam órfãs as bochechas do Brasil — teimosas em não amadurecer —, de uma dor necessária, fundamental.