Do fracasso moral ao intelectual - “Madeiro” ou “Madeira”?

Cidadão luzilandense, hoje residindo no Município do Madeiro, estabelecido, inclusive, com uma fazenda, indagou-me sobre a origem do nome do respectivo município.

Historicamente, a região era conhecida como “Madeira” e não como “Madeiro”. Segundo ele, seria bom que alguém descobrisse de quem foi a infeliz ideia de trocar “Madeira” por “Madeiro”.

- O senhor acha correto o nome Madeiro, amigo? – perguntou-me.

- Sou também da região e tenho conhecimento de causa. Portanto, considero-me com conhecimento e aptidão suficiente para respondê-lo, modéstia à parte.

O Município do Madeiro foi emancipado a partir do desmembramento do Município de Luzilândia, em 14 de Dezembro de 1995, através do Decreto nº. 4810/95. A história do município remonta ao início do século XX (1913), quando surgiram as primeiras habitações localizadas à margem direita do Rio Parnaíba. Ali agruparam-se as famílias Madeira, Aristides, Tomaz e Gomes.

Desde já afirmo que o nome do município “Madeiro” está incorreto. Aliás, quando a região ficou conhecida por “Madeira” era uma homenagem à família mais influente da época em 1913, a “família Madeira”. O que fizeram, então? Ignoraram a história, desconsideram a família e alteraram o nome para “Madeiro”, imaginando (até por falta de conhecimento) que o correto seria “Madeiro” e não “Madeira”. Até porque não existe no mundo uma só família cunhada por “Madeiro”.

A “família Madeira” que povoou a região tem sua origem em Portugal. Da mesma forma que ocorreu com a “família Vasconcelos” em Luzilândia, também de origem portuguesa, que habitou a região nos idos de 1870. Então, trocaram o nome de “Madeira” para “Madeiro” por falta até mesmo de conhecimento da história. Não por culpa dos habitantes do hoje Madeiro, mas por influência de alguns incautos do Município de Luzilândia.

A expressão “Madeiro”, segundo a literatura, é apenas um tronco, um pedaço de pau, uma estaca à qual as pessoas eram presas para serem punidas ou torturadas por governantes perseguidores, ditadores ou imperadores em períodos passados. No trabalho, é apenas uma peça forte ou um tronco que se emprega para sustentar vigas, paredes, casas,... Na religiosidade, o "madeiro" representou a cruz que Jesus levou até ao Calvário para ser crucificado. No cotidiano e como ditado popular, “madeiro” é considerado um "indivíduo estúpido", "mal educado". Sexualmente, o órgão masculino, no sentido pejorativo. Claro!

A expressão “madeira”, no entanto, é mais abrangente e tem um significado muito maior no sentido de que representa uma “árvore” e não apenas uma “estaca”, um “tronco” ou um “pedaço de pau”. Tanto que na literatura encontramos a expressão “àrvore familiar”, que representa nada mais, nada menos que a genealogia de uma família. O mesmo que a "madeira de uma família".

A “família Madeira” começou a habitar o Piauí na região de Alto Longá. Depois, seus descendentes migraram para as regiões de Luzilândia, Regeneração, Oeiras e até ao extremo sul do Estado, mais precisamente em Colônia do Gurguéia. Tanto é que temos uma das famílias mais influentes do Piauí, a família "Madeira Campos".

No campo social, “bodas de madeira” são tradicionalmente comemoradas quando o casal completa cinco anos de união matrimonial, conjugal. Segundo a tradição, cada ano de aniversário de casamento é comemorado tendo como associação um material que representa a relação do casal. As bodas de madeira simbolizam o fortalecimento e "enraizamento" da relação que começa a gerar "galhos" (filhos), assim como as árvores.

Então, segundo essa tradição, somente poderia gerar “galhos” ou “filhos” os que nascessem em “Madeira” e não no “Madeiro”. Isso porque uma estaca, um tronco e um pedaço de pau não podem gerar galhos, mas somente a árvore, a madeira nos campos e várzeas.

Meu interlocutor, então, perguntou-me se poderia mudar o nome para voltar a região ser chamada de "Madeira", seu nome originário. Respondi que sim. Para tanto, basta que se faça a consulta popular por um plebiscito e, se aprovado, encaminhe-se o pedido à Assembleia Legislativa do Piauí para que seja convertido em lei.

Uma coisa é definitivamente certa: o nome “Madeiro” é incorreto, inapelavelmente! Porque além de não representar uma “árvore”, uma base de povoação, não representa e nem faz referência e/ou designação a qualquer origem familiar de épocas passadas.

Para ilustrar, na história mundial temos a "Ilha da Madeira", principal ilha do arquipélago da Madeira situado no oceano Atlântico à sudoeste da costa portuguesa. Constitui, conjuntamente com Porto Santo, Ilhas Desertas e Ilhas Selvagens, o arquipélago da Madeira e a Região Autônoma da Madeira, que tem como capital a cidade do Funchal.

Como se nota, não seria correto chamar-se a região de "Ilha do Madeiro". Nada mais claro, não é mesmo!

Então, cavalheiros ou não, mudem o nome do Município do Madeiro para que não caiam no deboche! Porque o correto é Madeira. Esqueçam o idiota que colocou Madeiro.