Cartola argentino falecido é citado em esquema de propina no caso Fifa

Um dos mais poderosos dirigentes até sua morte em 2014, Julio Grondonda é apontado por delator como um dos principais articuladores no esquema de propinas na venda de direitos de transmissão

Chamado de “King Maker” (Fazedor de Reis) pelo empresário argentino e delator Alejandro Burzaco, esta semana, durante os depoimentos do Caso Fifa na Corte Federal do Brooklyn, Julio Grondona foi peça central nos esquemas de distribuição de propinas por direitos de contratos do futebol sul-americano até morrer aos 82 anos, no dia 30 de julho de 2014. Uma parada cardíaca na mesa de cirurgia do Hospital Mitre, em Buenos Aires, tirou de cena o poderoso dirigente argentino exatamente dez meses antes de eclodir o maior escândalo da história do futebol, com a prisão inicialmente de 14 dirigentes – sete deles num hotel em Zurique – no dia 27 de maio de 2015.

O poder de persuasão e o pulso firme foram marcas registradas de Grondona durante os 35 anos em que presidiu a Associação do Futebol Argentino (AFA). Alçado ao poder sob a bênção do general e ditador Jorge Rafael Videla, em 1979, o dirigente tornou-se literalmente do dono do cofre do futebol daquele país, e, por que não, da América do Sul. Do dia em que foi colocado no cargo por Videla até o da sua morte, nada menos que 13 presidentes da República governaram a Argentina. Nem mesmo oito greves de jogadores e três de árbitros abalaram os nove mandatos de Julio Humberto Grondona.

Alejandro Burzaco chega para audiência Nova York (Foto: Divulgação/Reuters)
Alejandro Burzaco chega para audiência Nova York (Foto: Divulgação/Reuters)

A estrutura de poder do cartola ultrapassava as fronteiras argentinas. Grondona foi vice-presidente e membro do Comitê Executivo da Fifa desde 1988 (quando João Havelange ainda governava) até o dia de sua morte. Liderou também o Comitê de Finanças da Fifa em três dos cinco mandatos do suíço Joseph Blatter, mesmo sem falar uma frase completa em inglês. Em território local, o cartola controlava o repasse do dinheiro de contratos de direitos de TV aos clubes e até mesmo a distribuição de ingressos da Copa do Mundo para presidente de times argentinos, que, por sua vez, vendiam e até repassavam aos “barras bravas” (torcedores violentos).
 
Homem de poucas, mas diretas palavras, Julio Grondona impressionava também pela astúcia. Vários exemplos foram relatados por Alejandro Buzarco, durante a semana, nos depoimentos do delator durante os julgamentos do brasileiro José Maria Marin, do paraguaio Juan Angel Napout e do peruano Manuel Burga.

Julio Grondona, ex-presidente da AFA, ao lado de Joseph Blatter (Foto: Divulgação/Getty Images)
Julio Grondona, ex-presidente da AFA, ao lado de Joseph Blatter (Foto: Divulgação/Getty Images)

Segundo Buzarco, foi Grondona quem acertou o pagamento de US$ 1 milhão a cada um dos três membros sul-americanos da Conmebol no Comitê Executivo da Fifa (ele próprio, o paraguaio Nicolás Leoz e o brasileiro Ricardo Teixeira) para votarem no Qatar como sede da Copa do Mundo de 2022, na eleição ocorrida a 2 de dezembro de 2010, em Zurique.

- Na primeira rodada da eleição, Grondona e Teixeira descobriram que Nicolás Leoz votou na candidatura conjunta de Japão e Coreia do Sul. Grondona deu uma chacoalhada em Leoz para que cumprisse o que havia sido acertado - relatou Burzaco.

Em maio de 2014, pouco menos de um mês para o início da Copa do Mundo no Brasil, Grondona virou sozinho um jogo que parecia perdido. Oito dos dez presidentes de federações nacionais da América do Sul queriam destituir o uruguaio Eugenio Figueiredo, que assumira a Conmebol com a renúncia de Nicolás Leoz por ter aparecido na lista de propinas da ISL. Na reunião do Comitê Executivo da Conmebol, realizada no Hotel Sheraton, do bairro do Retiro, em Buenos Aires, Grondona deu um soco na mesa. Foi após ter sido procurado pelo brasileiro Marco Polo del Nero. Este último, José Maria Marin (então presidente da CBF) e praticamente todos os demais dirigentes queriam aproveitar a reunião para empossar o paraguaio Juan Angel Napout oito meses antes da eleição e do fim do mandato de Figueredo na Conmebol.

- Cansei de ver presidentes reunidos dizendo que todos estavam juntos e que Grondona não poderia ditar as regras. Mas quando Don Julio gritava nas reuniões, todos se tornavam cordeiros, e nada mudava - confirmou ao GloboEsporte.com um ex-funcionário da Conmebol, que trabalhou para a entidade por mais de 25 anos e prefere se manter no anonimato.

Julio Grondona cumprimenta o astro do futebol argentino Messi (Foto: Divulgação/REUTERS)
Julio Grondona cumprimenta o astro do futebol argentino Messi (Foto: Divulgação/REUTERS)

Com a morte de Grondona, foi revelada esta semana, durante as audiências na Corte do Brooklyn, a razão de os rebeldes não terem demorado para eleger Napout antes mesmo do prazo de janeiro de 2015. Segundo Burzaco contou ao procurador americano Samuel Nitze durante o julgamento, ele foi chamado, em outubro de 2014, para reuniões em Luque (Paraguai), no Hotel Bourbon, ao lado da sede da Conmebol. Na primeira delas, segundo o testemunho de Burzaco, o já presidente Napout e o brasileiro Marco Polo del Nero (então número 2 da CBF) “foram direto ao assunto”, segundo o empresário: “Eles me pediram que lhes explicasse o total das propinas que Grondona recebia pela Libertadores e pela Sul-Americana. E isso eu fiz”.

Quando o procurador Samuel Nitze perguntou quais as instruções que Burzaco recebera dos dois dirigentes, o empresário respondeu que Napout e Del Nero resolveram quem receberia dinheiro e quanto cobraria Luis Segura, o novo presidente da AFA, que já havia perguntado a Burzaco quanto ganharia.

Buzarco não disse com suas palavras no tribunal, mas a atitude que ele relatou de Napout e Del Nero foi uma cópia do modelo operacional de Grondona, que fez da AFA e do futebol sul-americano sua própria indústria de subornos, mantendo o status de líder. Tanto na AFA quanto na Conmebol, o velho caudilho mantinha controle do Departamento de Árbitros e sufocava os rebeldes, mantendo os direitos de TV, impedindo os clubes de negociá-los diretamente e obrigando-os a passar pelo filtro das entidades.

Desde 26 de outubro de 2011 até o dia de sua morte (30 de julho de 2014), Grondona cumpria o nono mandato consecutivo. Dizia que iria se despedir em outubro de 2015, sem buscar a décima reeleição. Mas, ninguém acreditava. Em sete das oito reeleições, foi aclamado presidente. Somente numa delas, em 1991, teve um opositor, o ex-árbitro Teodoro Nitti, que recebeu apenas um voto, contra 40 de Don Julio.

A explosão tardia do Caso Fifa não levou Grondona aos tribunais, mas serviu para começar a mudar o panorama do jogo sujo que domina o futebol mundial. Nesta segunda-feira, o julgamento será retomado, para uma semana curta, com sessões apenas na segunda e na terça-feira, por causa do Dia de Ação de Graças, na quinta-feira. Mas, sejam quais forem as testemunhas, o nome do “velho dono do cofre” e de seus sucessores seguramente será mencionado muitas e muitas vezes.

 

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