O perigo que representa o River Plate renascido

Sob o comando de El Muñeco Gallardo desde 2014, o River Plate é provavelmente o time mais copeiro da América do Sul

O time de Marcelo Gallardo não se contentou em reverter a derrota por três gols na Bolívia para seguir adiante na Libertadores: fez um placar suficiente para se classificar duas vezes ao enfileirar pornográficos 8 a 0 no Jorge Wilstermann, que passou de sensação da competição para o lado negro das estatisticas. O Millonario, assim, saiu da condição de quem aguardava a extrema-unção para uma sobrevida que certamente deixa de orelha em pé os outros três semifinalistas da Libertadores.

Em 2015, ano em que conquistaria seu terceiro título, o River Plate pariu uma LHAMA para passar da fase de grupos, numa chave aparentemente DÓCIL que contava com Tigres, San José e Juan Aurich. Estava tão desenganado quanto agora e obteve a vaga apenas porque na última rodada venceu o San Jose (aliás, sua PRIMEIRA vitória) e os reservas do time mexicano viraram um 3 a 2 para 5 a 4 contra o Juan Aurich, no Perú, trazendo o River de arrasto como o pior classificado de todos os 16 participantes das oitavas de final. O Tigres, aliás, já havia mantido o River respirando por aparelhos ao ceder um empate na rodada anterior, após estar vencendo por 2 a 0, no México.

Prova cabal de que a Libertadores é forjada na MALÍCIA é que ambos os times se encontrariam na decisão, e então o River Plate passaria o Tigres em um moedor de carne, para mostrar que não se desperdiça a chance de eliminar uma GRIFE deste porte quando a oportunidade se apresenta - enquanto houver um mínimo sinal vital, ainda representa uma ameaça. Antes da final, o River Plate havia eliminado o Boca Juniors no encontro fatídico que nunca chegou ao fim e foi decidido por EL PANADERO (o que até hoje rende a ira dos torcedores do Boca, que classificam o River como Campeão de Escritório), tirou o Cruzeiro mesmo perdendo a primeira em casa por 1 a 0 e, na semifinal, quando todos os ventos já pareciam conspirar para o norte de Buenos Aires, sacou o paraguaio Guaraní.

Sob o comando de El Muñeco Gallardo desde 2014, o River Plate é provavelmente o time mais copeiro da América do Sul. Desde então venceu a Sul-Americana, a Recopa e a Libertadores e mantém uma coluna de jogadores fundamentais e um estilo de jogo. Cambaleia em alguns momentos da temporada, mas cresce quando chega a hora em que a coruja pia miúdo. Com a Libertadores sendo disputada de maneira mais espaçada, pode se adaptar às baixas de Sebastián Driussi e Lucas Alario, recém negociados, encaixando no time reforços do porte de Pinola (ex-Rosário Central), Enzo Perez (ex-Valencia) e Ignacio Scocco (ex-Newell's).

Um capítulo especial na ressurreição deste River Plate que se negou a seguir a luz é representado por Nacho Scocco. Ontem, contra o Wilstermann, ele tornou-se o primeiro jogador a marcar cinco gols em uma partida de mata-mata de Libertadores. De atacante decisivo no Newell's Old Boys, com grande campanha na Libertadores de 2013, Scocco não vingou quando chegou no Internacional, ondem marcou QUATRO gols e logo resolveu ir embora alegando "falta de adrenalina". Pois ontem parece que algum John Travolta emergencial surgiu no vestiário do Monumental gritando "Qué pasa?" para lhe aplicar a famosa injeção de adrenalina no coração, como Uma Thurman santafesina. Assim como o River, Nacho Scocco levantou do mundo dos mortos e agora talvez apenas o cume da Cordilheira seja o limite.

Para evocar uma verdadeira entidade que se materializava em noites de Libertadores, anti-River por natureza, "a Libertadores começa a partir das oitavas". A frase de Juan Román Riquelme deixa claro que há duas competições em jogo e cada qual exige um nível de envergadura: depois da fase de grupos é que começa a Libertadores com classificação indicativa de faixa etária, tanto mais imprópria para os imberbes e pudicos conforme avança. E, nesta situação, deparar-se com um gigante renascido muitas vezes é uma visão traumatizante.

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